4. ECONOMIA 8.8.12

SECA NOS EUA, FARTURA AQUI

A estiagem mais severa em cinco dcadas solapou a produtividade nos campos americanos de soja e milho. Para os produtores brasileiros, a alta nas cotaes trouxe ganhos inditos.
MARCELO SAKATE E ANA LUIZA DALTRO.
De SORRISO (MT)

     Os produtores brasileiros de soja e milho, os dois principais gros cultivados no pas, esperavam ter em 2012 um ano difcil. A estiagem no Sul resultou em uma quebra da safra raramente vista. Para a soja, a queda de 12% na produo foi a maior em duas dcadas, ou 9 milhes de toneladas a menos em relao ao ano anterior. As perdas foram inicialmente estimadas em 7 bilhes de reais. Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, o maior plantio da histria fundamentou a expectativa de uma safra recorde de milho, a principal cultura no pas, alm do aumento na colheita de soja. Mas, em dois meses, a sorte dos produtores americanos e brasileiros foi alterada radicalmente.
     O incio do vero no Hemisfrio Norte foi acompanhado da seca mais abrangente nos Estados Unidos em mais de meio sculo. Dois teros da rea apta para o cultivo sofrem com a escassez de chuvas. A ocorrncia no ano passado do La Nia, o fenmeno climtico caracterizado pelo esfriamento das guas do Oceano Pacfico tropical, reduziu o volume de precipitaes (foi o mesmo vilo da estiagem no sul do Brasil). Alm disso, um inverno mais ameno que o usual fez o solo perder umidade mais rapidamente na primavera e no vero. A seca solapou, de junho para julho, a estimativa de alcanar uma colheita histrica de milho. A expectativa passou de 376 milhes para 329 milhes de toneladas, e dever cair ainda mais nas projees a serem divulgadas no prximo dia 10  provavelmente ficar abaixo dos 314 milhes de toneladas da ltima safra. A reduo j oficializada equivale a dois teros da atual safra brasileira.
     A seca americana tem ampla repercusso nas cotaes mundiais das matrias-primas agrcolas, uma vez que o pas  o maior produtor de milho, soja e trigo. No caso do milho, os Estados Unidos respondem por 40% das exportaes globais. Isso explica a alta de 33% no preo do gro desde meados de junho. O encarecimento reavivou os temores de uma crise alimentar de alcance global, principalmente nos pases pobres.  um cenrio visto pela ltima vez em 2008, nos meses que antecederam a crise financeira. Na ocasio, os preos elevados fomentaram mais de sessenta manifestaes populares em trinta pases, principalmente na frica e na sia. Estamos  beira de uma nova crise, a terceira em cinco anos e talvez a pior de todas. Ela ser capaz de causar novas revoltas, comparveis  da Primavera rabe, diz Yanur Bar-Yam, presidente do New England Complex Systems Institute. Ele e outros dois pesquisadores estudaram a correlao entre os preos de alimentos e os protestos e encontraram um patamar acima do qual as revoltas se tornam mais provveis.  com base nesse modelo estatstico que ele faz o alerta.
     Mas os preos elevados das commodities agrcolas trazem benefcios ao Brasil. No principal polo produtor de soja do pas, em Mato Grosso, a evoluo das cotaes j se reflete em planos ambiciosos para a prxima safra. Alm disso, a colheita acima das expectativas da atual safra de milho de inverno, a chamada safrinha, cultivada no intervalo do plantio da soja, potencializou o rendimento dos produtores. Empresas americanas fecharam contratos para importar milho do Brasil, algo indito. A safrinha foi favorecida pelas chuvas na regio, que costumam se estender de setembro a maro, mas, neste ano, s cessaram em junho. Foi uma condio excepcional para a colheita, diz Arlei Locatelli, da fazenda Itachin, em Sorriso. A famlia Locatelli, natural do Rio Grande do Sul,  produtora em Mato Grosso desde os anos 80. Eles esto entre os que se aproveitaram das condies favorveis para investir pesadamente na aquisio de maquinrio. Compraram uma plantadeira, uma colheitadeira, um trator e um caminho. A tecnologia  essencial para o aumento da produo, afirma Locatelli. A bonana  tamanha que a Agro Baggio, representante do gigante americano de maquinrio agrcola John Deere em Sorriso, no tem mais plantadeiras nem tratores nos estoques; foram todos vendidos.
     Desde o fim de 2011, o preo da soja subiu mais de 60% no pas. Em relao  mdia histrica recente, a diferena  ainda maior. O preo do saco de 60 quilos era negociado a 83 reais na semana passada, mais que o dobro em relao aos 34 reais da mdia da ltima dcada. O preo recorde significa uma oportunidade excepcional para os produtores aumentarem os investimentos na lavoura, elevando a produtividade, diz Fbio Trigueirinho, secretrio-geral da Associao Brasileira das Indstrias de leos Vegetais (Abiove). Pela primeira vez, a safra de soja poder se equiparar em volume  americana. O nico efeito negativo, para o Brasil, com a alta dos gros ser um possvel aumento no preo dos alimentos.
     A valorizao do dlar em relao ao real tambm beneficia os exportadores (a matria-prima  negociada por meio da moeda americana). Os ganhos s no sero maiores por causa dos gargalos logsticos. Faltam estradas e portos para escoar a produo. Chama ateno o desperdcio durante o transporte. Na BR 163, que liga as reas mais importantes de Mato Grosso, os acostamentos so forrados de milho. Os gros caem das carretas e deixam uma imensido amarela nos cantos da estrada, que persiste durante os quase 400 quilmetros que separam Sorriso da capital, Cuiab. Se as condies permitirem, podemos ampliar a produo para 100 milhes de toneladas, diz Alysson Paolinelli, presidente da Associao Brasileira dos Produtores de Milho, em referncia  mdia de 50 milhes a 60 milhes de toneladas dos ltimos anos.
     Ao menos a meteorologia dever seguir favorvel. Segundo os especialistas, j existem indcios de que a passagem de 2012 para 2013 ser marcada pelo El Nio, o fenmeno climtico de aquecimento das guas do Pacfico. Se confirmado, isso vai se traduzir na antecipao das chuvas na Regio Sul, melhorando as condies para o plantio no Brasil. Diferentemente do cenrio da safra passada, os produtores brasileiros de milho e soja ingressariam em 2013 sob os auspcios da melhor e mais rentvel colheita da histria.

